A escola e a saúde mental – não deveria ser assim

Estudar = Sofrer?

Eu insisto que esse assunto PRECISA ser debatido, desde o ensino médio até a pós-graduação. A pressão é exagerada, desnecessária e ridícula. A coisa começa quando o ensino médio está prestes a terminar, porque o aluno precisa estar preparado para o ENEM ou o vestibular né. Qual das duas opções acima é mais estressante para o candidato? O vestibular, além de ser um “matadouro”, acaba sendo muito mais excludente do que inclusivo. Ou seja, o candidato já vai com o pensamento “você tem que passar no vestibular”, como dizia Renato Russo.

Já o ENEM é um verdadeiro festival de pessoas desesperadas em não perder o horário e outras pessoas ridículas (incluindo a imprensa), publicando fotos e vídeos daqueles que não conseguiram entrar. O sadismo presente nesse tipo de “notícia” é deprimente. Tem veterano que chama os amigos, compra cerveja e fica apreciando a desgraça alheia. Nada mais me surpreende.

Tanto no caso do ENEM quanto do vestibular, cabe falar da exaustiva rotina de estudos preparatórios e da exarcebada pressão da família, dos amigos e do próprio candidato sobre a missão de ser bem sucedido nessa jornada. O importante é estudar muito, privar-se de atividades consideradas supérfluas. O convívio social e familiar é, muitas vezes, fortemente abalado.

Tente se lembrar de quantas pessoas você conhece que passaram por situações de extremo estresse, sentimento de incapacidade, levando um quadro de ansiedade e consequente depressão. Talvez você próprio tenha passado por isso. Bem, eu passei por isso, na pós gradução.

Em 2014 ingressei no mestrado e um grande amigo já dizia: “Rui, entrar no mestrado é fácil, difícil é sair”. No meu caso, não houve toda essa pressão citada anteriormente para o ingresso. A seleção foi tranquila e o início das atividades também. Os problemas começaram depois de um certo tempo.

Em uma disciplina o professor escrevia tanto na lousa em cada aula, que rendia em média 7 páginas no meu caderno. Até aí tudo bem, é comprovadamente benéfico, do ponto de vista cognitivo, anotar as aulas. O problema é que ele escrevia e apagava muito rápido. O outro problema é que tenho tendinite e eu saía literalmente quase chorando de dor após cada aula. Em certas ocasiões, percebíamos um certo sorriso sádico enquanto ele apagava e via que nem todos conseguiram copiar. Mas o pior vinha nas avaliações. Ele exigia que suas respostas fossem idênticas, palavra por palavra, ao que ele havia passado na lousa. Se você escrever um “a” diferente, ele já descontava ponto. Em uma avaliação eu fiquei por último na sala, ele se levanta e me diz: “acho que vou lhe dar mais um tempinho”. Eu até sorri, pensando no quanto eu havia me enganado sobre ele. “Você tem mais 10 segundos”. Gente, eu fervi por dentro, a vontade foi de fazer ele engolir a prova. Eu aprendi o conteúdo, mas reprovei na disciplina, porque eu não assimilei o método pedagógico (sic) dele. Pergunto, pra quê isso?

Com outro professor foi pior. Iniciamos a turma com 9 alunos e só um passou. Apesar de não haver nenhum estrangeiro na turma, ele fez questão de ministrar todas as aulas em inglês. E não não era aquele inglês pausado, preocupando-se se estávamos entendendo. Não. Parecia que era pra ferrar com nossa vida mesmo. Disciplina super pesada, complexa, com aulas em inglês. Durante uma apresentação, ele dizia que o código ficou ruim, que éramos muito ruins, que nem devíamos estar ali. Em outras aulas, ele ficava divagando, rolando a página do computador pra cima e pra baixo, sem que nós conseguíssemos acompanhar. Aquilo era extremamente irritante! Em outra ocasião, eu e um amigo ficamos estudando ate a madrugada para dar conta de um trabalho. No outro dia, obviamente estávamos com forte olheiras. Ao encontrá-lo no corredor, ele olha pro meu amigo e solta: “assim que eu gosto, cara de acabado!”. Cancelei a disciplina, pois entendo que não é correto me sujeito a esse tipo de humilhação, sobretudo na pós-graduação, o berço da comunidade científica. Pergunto novamente, pra quê isso?

Depois de cumpridos os créditos, muita gente pensa: “oba, terminei, agora é “só escrever”. É, eu também caí nessa. O sentimento de impotência diante do que deve ser feito, comparado com o que você já fez e os prazos, te levam a um estado emocional deplorável. Deu tudo certo, qualifiquei, defendi, tive artigo aprovado. Mas passei 6 meses na base do Rivotril. Mais uma vez, pra quê isso?

Como reflexão, deixo este vídeo de uma entrevista com o professor Robson Cruz, doutor em Psicologia pela UFMG e pós-doutor pela PUC-SP, sobre o assunto.

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