Manifesto sobre o minimalismo patafísico

Texto, do latim, textum, tecido.

Graciliano Ramos dizia que o texto deveria ser escrito da mesma forma como as lavadeiras do Alagoas fazem o seu ofício: Torcendo e retorcendo o tecido até não pingar do pano uma só gota.

Ernest Hemingway argumentava que as palavras haviam perdido o gume. Em busca da realidade mais crua, Hemingway acreditava que as palavras estavam cegas, insossas, por conta do seu uso em demasia.

Por outro lado, temos a patafísica, ciência das soluções imaginárias. Ora, se a ciência é matéria que busca soluções concretas para explicar nossa realidade, como pode ser ela objetivo de soluções imaginárias? É nesta contradição elíptica que reside a pedra pumes para afiar as palavras. A justaposição de aspectos opostos é um biscoito fino, ao mesmo tempo crocante e macio.

Tanto Ramos quanto Hemingway buscaram afiar suas palavras economizando-as. Graciliano através de retorcer o tecido, Hemingway com sua teoria do iceberg. Que melhor forma de economiza-las que não escondê-las dentro de paradoxos, antíteses, contradições elípticas?

Uma das aplicações da patafísica na literatura foi a OuLipo. Movimento que busca introduzir padrões matemáticos na produção de textos, sendo Georges Perec e Ítalo Calvino seus maiores expoentes. Que elegante contradição: Matemática aplicada à escrita.

Ademais, os padrões matemáticos, assim como a patafísica em si, funcionam como ferramenta potente para afiar palavras.
A patafísica como temática provê os dilemas e ações paradoxais que irão compor o enredo. A matemática, oferece estrutura. O minimalismo entra com o estilo, a técnica, que deve traduzir no tecido do texto a mensagem coesa, garantindo coerência entre temática, mensagem e meio. A saber:

– Sempre que possível, sujeito oculto ou indefinido.
– Preferir orações em ordem direta.
– Elípses verbais serão muitíssmo apreciadas.
– Sequências de orações coordenadas asindéticas ajudarão com o rítmo.
– Períodos com mais de quatro palavras, deverão ser precedidos de pelo menos três períodos com menos de quatro palavras.

Não são réguas, claro. São compassos e esquadros talvez, ajudam a guiar, traçar, mas não devem limitar.

Podemos aplicar estes conceitos em um texto conhecido, para ver seu efeito. Peguemos um trecho de Cervantes por exemplo, em seu Quixote:

“À força de tanto ler e imaginar, fui me distanciando da realidade ao ponto de já não poder distinguir em que dimensão vivo.”

Primeiro, precisamos de uma contradição:

À força de tanto ler e imaginar, fui me aproximando da realidade, ao ponto de já não ter mais nenhuma dúvida, da realidade dura e crua.

Agora, organizar o texto de forma direta:

Eu leio e imagino tanto, que me aproximo cada vez mais da realidade, ao ponto que não tenho mais dúvidas sobrea a realidade, que é nua e crua.

Agora, coesão:

Eu leio e imagino. Me aproximo cada vez mais da realidade. Não tenho dúvidas, é nua e crua.

E então, subtração:

Leio e imagino. Aproximo da realidade, nua e crua.

Quantos mistérios agora pairam sobre esta oração? Da mesma forma que, como diria Breton, “Não é o medo da loucura que nos vai obrigar a hastear a meio-pau a bandeira da imaginação”, digo que a pureza e elegância da simplicidade, somados ao mistério dos paradoxos, irão fincar a bandeira da criatividade.

Fonte: https://timoteopinto.wordpress.com/manifesto-sobre-o-minimalismo-patafisico/